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A Fábula Do Leão E Da Palanca (José Eduardo Agualusa)

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Pedro-NF
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A Fábula Do Leão E Da Palanca (José Eduardo Agualusa)

#1

Post by Pedro-NF » 31 Aug 2015, 07:40

A Fábula Do Leão E Da Palanca (José Eduardo Agualusa)

Uma história para quem sente falta de "antigamentes" como a ditadura

Sempre que vejo manifestantes, em democracia, clamando pelo regresso de ditadores, lembro-me de um conto tradicional africano e rio-me para dentro (um pouco, outro tanto choro). Passou-se esta história numa savana extensa, sujeita desde há várias décadas ao reinado feroz de um certo leão. Um dia os animais revoltaram-se e expulsaram o ditador. Durante os primeiros tempos tudo correu bem. Até que houve um ano em que as chuvas se atrasaram e o capim começou a faltar.

"Antigamente é que era bom" - comentou uma palanca velha, enquanto roía uma raiz: "Antigamente, no tempo do Rei Leão. A gente apanhava, mas a gente comia".

Um elefante lembrou que no tempo do Rei Leão as chuvas também se atrasavam, e o capim escasseava. A Palanca encolheu os ombros magros e continuou a protestar:

"Antigamente é que era bom!"

A partir dessa altura a Palanca passou a responder com aquela frase a qualquer coisa que lhe perguntassem:

"Como vai a senhora?"

"Antigamente é que era bom!"

"Você gosta de samba?"

"Antigamente é que era bom!"

"O que você pensa da situação na Grécia?"

"Antigamente é que era bom!"

A frase espalhou-se como um mantra. Até jovens gazelas, nascidas muito depois da queda do Rei Leão, começaram a defender o regresso da ditadura:

"Antigamente é que era bom. Queremos o Rei Leão. A gente apanha, mas a gente gosta".

A notícia de que havia bichos na savana clamando pelo seu regresso chegou aos ouvidos do Rei Leão. O velho ditador riu-se muito, dando grandes patadas no forte peito, rebolando-se na poeira; riu-se até lhe virem lágrimas aos olhos:

"É lá possível! Não podem ser tão estúpidos!"

Pensou melhor. Não há nada tão certo quanto a estupidez. Não há nada tão sólido quanto a estupidez. Decidiu então regressar à savana disfarçado de hipopótamo. Precisava confirmar com os próprios olhos, com os próprios ouvidos, a veracidade da notícia. Surpreendeu-se ao encontrar a savana muito melhorada. A bicharada reunia-se para debater, horas a fio, idéias diferentes, e com isso conseguia encontrar boas soluções para os problemas do dia a dia. A seca era grave, sim, mas não havia ninguém morrendo de fome. No tempo dele os bichos morriam de fome até durante a estação das chuvas. Se uma seca semelhante tivesse ocorrido durante o seu reinado metade da população teria morrido.

O Rei Leão continuou o seu caminho e depressa encontrou a Palanca, a qual, por essa altura, já liderava um pequeno grupo de descontentes.

"Afinal o que querem vocês?" - perguntou-lhes o Rei Leão.

A Palanca, que não o reconheceu, tão bem disfarçado estava ele, resfolegou irritada:

"Ordem! Autoridade! Antigamente é que era bom!"

Uma das gazelas retorquiu que antigamente o capim era mais verde e mais macio. Outra, muito excitada, proclamou que não só queriam o regresso do Rei Leão, mas também dos caçadores.

"Dos caçadores?!", espantou-se o Rei Leão. Não há nada tão certo quanto a estupidez, voltou a pensar, nem tão sólido, nem tão imenso. A estupidez é mais vasta e mais escura do que a soma de todas as noites, desde o princípio dos tempos. A estupidez é a prova definitiva de que Deus não existe.

"Os caçadores são fofos!", gritou a gazela, em êxtase. "São fofos! São fofos!", gritaram as outras.

Aquilo foi a gota de água. O Rei Leão arrancou a fantasia de hipopótamo que lhe cobria o corpo, derrubou a Palanca com uma forte patada e começou a devorá-la. As gazelas bailavam em redor, cantando, "Ordem! Autoridade! O Rei Leão voltou! Viva o Rei Leão! Viva o Rei Leão!"

"E agora?", perguntou o Rei Leão à Palanca, quando mais nada restava dela senão a cabeça e os curvos e imponentes cornos. "Agora ainda achas que antigamente é que era bom?"

"Sim, sim, excelência!", confirmou a cabeça da Palanca, num murmúrio respeitoso. "Antigamente é que era bom!"

O Rei Leão afastou-se, sacudindo desesperado a vasta juba, e voltou para o exílio.

"Pior do que ter inimigos inteligentes é ter aliados estúpidos", explicou mais tarde aos filhos. "Por outro lado, a carne dos estúpidos é tão gostosa quanto a dos inteligentes. Assim, se não conseguirem comer os vossos inimigos, comam os vossos aliados. O importante é comerem".

Ainda hoje a cabeça da Palanca pode ser vista, lá, na savana, a falar sozinha. Os bichos já nem se lembram muito bem do nome dela. Chamam-lhe Antigamente. Riem-se quando passam perto:

"E aí, Antigamente?! Tudo bem?"

E a cabeça da Palanca responde, num tom lúgubre:

"Antigamente... Antigamente..."

José Eduardo Agualusa - Jornal O Globo, edição de 24/08/2015


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